Já estamos trabalhando para a próxima edição do festival.

Estilo Polirrítmico de Gersy Saraiva

ENTREVISTA REALIZADA EM 2007 PELA PORTOWEB TAMBOR SITE PARCEIRO DO PERCPOA.

Gersy Saraiva, natural de São Leopoldo, é baterista e percussionista, com muitas histórias pra contar em seus mais de 50 anos de carreira. Fã confesso dos gêneros jazz, bossa-nova e samba, Saraiva exercita uma polirritmia irreverente ao tocar bateria, sobrepondo até quatro divisões distintas em um mesmo andamento. Grandes nomes da MPB, como Elis Regina, até feras do jazz, como o trompetista norte-americano Dizzy Gillespie, já provaram a sensação de ter Gersy Saraiva em sua cozinha*. Na manhã de 24 de abril, dia do Chimarrão, o PortoWeb recebeu o baterista gaúcho para esta entrevista exclusiva.


PW - Como começou tua carreira?
Eu era menino, tinha 12 anos, e estudava lá em São Leopoldo quando me convidaram para integrar a Escola Tamboreiros, no grupo elementar. Foi lá que comecei a minha vida musical. Desde então, eu não parei mais. Fui músico da banda da Aeronáutica do Rio Grande do Sul até dar baixa. Depois toquei muito tempo em bailes e também em orquestras. Até os 23 anos eu era percussionista. Tornei-me baterista depois, quando meu irmão montou a orquestra Saraiva & Araújo, e eu passei a ser o substituto dele nas folgas. Dia após dia fui me dedicando à bateria, principalmente no jazz. Tive também a oportunidade de passar um tempo em Buenos Aires, e lá montei um trio: eu na bateria, Cidinho no piano e Gravatinha no contrabaixo. Voltei para o Brasil e comecei a tocar com o Itamoni Show, de Caxias do Sul, por sete anos.

PW - Quais são as tuas influências? Max Roach, Jack De Johnette, Louis Belson, Bill Evans, e atualmente, Tony Williams. Dos brasileiros, o Airto Moreira e o Edson Machado são os que me influenciaram.

PW – Qual é o teu estilo?
Eu me baseio sempre na linha moderna do jazz, que influenciou muito a bossa-nova e que fez evoluir o nosso samba.

PW- O que toca no aparelho de som de Gersy Saraiva?
Jazz. Muito jazz, bossa-nova e samba.

PW - Como tu vês hoje o cenário musical brasileiro? E a cena musical de Porto Alegre?
Não é muito bom não. O povo brasileiro não dá muito valor ao seu artista. Ele acaba sendo valorizado lá no exterior. Basta dizer que alguns dos melhores cantores e músicos vivem hoje nos EUA e na Europa, ou ficam lá por um grande período, pois é lá que são reconhecidos. Eu acho que aqui no sul tem muito preconceito. Preconceito musical, social, então a música aqui no sul não é tão valorizada, a não ser a música tradicional. Mas é bom lembrar que mesmo o ritmo folclórico gaúcho foi herdado do estrangeiro.

PW – Para que lugares já viajastes com tua bateria? 
Toquei em todo Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Toquei nos programas da TV Tupi, no Show do Golias. E toquei na Argentina, em mais de 20 cidades durante uma turnê.

PW - Quais os momentos mais marcantes da tua carreira? 
Marcante foi com a Orquestra do Ernani Marino. Macedinho ficou de maestro da orquestra, e ele foi fazer um carnaval na Argentina, em Rosário Central. Então, fui eu de baterista. Na hora em que eu estava tocando com a orquestra, o Macedinho deixou uma deixa pra mim na batera, e eu comecei a fazer o solo para mais de cinco mil pessoas. Toquei também com Pedrinho Mattar, com Moacir Pechato e com o Maestro Karl Faust. Também me marcou ter tocado, nos anos 90, com Almir Guineto. No final do show ele veio me agradecer por ter tocado de forma brilhante, e disse que se não fosse eu, a banda estaria arrasada. Toquei também com a Elis Regina, na Rádio Gaúcha, no programa do Maurício Sirotsky. Nessas apresentações, que eram no Cine Castelo, eu tocava com a Orquestra de Karl Faust.

PW –  O que você faz hoje profissionalmente?
Eu organizo e participo de workshops. Procuro sempre locais estratégicos como o Teatro de Câmara, entre outros pontos de Porto Alegre. Também participei do PercPoa** no final de 2006.

PW – E os amigos que fizestes ao longo da carreira? 
Eu revelei Nenê, o Mutinho, meu sobrinho Jahmay e meu filho Ricardo “Pinote”. Quanto à música, acho que criei a polirritmia, que é utilizar quatro divisões diferentes em um único andamento. É uma técnica que construí e se tem outro músico que faça isso, eu pelo menos não conheço. Quanto aos amigos que fiz na carreira, cito Almir Stock, Rubinho, Nilton Baraldo, que tocava com a Ângela Maria, Luis Eça, Maestro Garoto, e Herbert Gehr entre outros.

PW – Tens projetos? 
Eu pretendo montar um conjunto de jazz, Bossa-Nova e samba.

PW - O que ainda falta realizar?
Ser mais valorizado como músico pelos brasileiros. Pra mim essa entrevista já é um grande passo.

PW - E se não fosses músico, o que serias? 
Seria engenheiro. A casa que eu moro é de madeira e estava caindo aos pedaços. Daí eu mesmo consegui fazer uma casa. Estou muito satisfeito de estar morando em uma casa que eu fiz, é uma sensação única. Sou meio autodidata.
* Jargão musical para bateria ou percussão.
** Festival de Percussão Gaúcha, apoiado pelo PortoWeb.